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Dueto

 

-Vida imprestável! – mortificou-se o policial naquela manhã de modorra no Rio de Janeiro.

- Acordei com o pé esquerdo! – danando-se com a frase feita que irritou ainda mais sua constatação biográfica. A camisa cor de bosta de sua farda e suas longas botas do ofício eram de um frangalho “de dar dó”, e a mulher reclamando do salário injusto dos milicos. Lembrou-se do Getúlio e não atinou no sentido de todo dia ter que surrar um ou dois comunas para manter a ordem nacional. Suas mãos ordenhavam sangue de vacas confusas. Discernimentos não eram sua especialidade. Cumpria ordens. Além do mais, tinha fome. Nunca ouvira falar de Esparta se lhe dissessem que seu desjejum era de lá. Pão amarelecido e a desesperança besuntada. No quartel, para piorar a sina, os colegas gozariam do fracasso do seu Flamengo e de sua barba escanhoada com o primor dos míopes.

-Vida imprestável! – ruminou novamente o policial, agora já consciente de seu dever, endireitando o colarinho cor de bosta e tomando o primeiro bonde em direção da Lapa. Ainda cultivava no íntimo certo orgulho por sua profissão. Uma leve polida na poeira da autoestima. Mas, por que sua mulher era tão ranzinza assim? – Retomou seu dilema particular nos solavancos do bonde. A algazarra dos moleques nas ruas de Santa Tereza o aborrecia dolorosamente. Nada por que se esforçasse satisfazia a mulher que por ele tinha uma visão aviltante:

- Olha essas meias fedorentas no sofá! – gritava.

- Que barrigona indecente! – humilhava a danada, sem atinar na própria pança e no buço repelente que ele não notou antes.

Tempos perfeitos os de namoro e da lua de mel: jovem oficial militar, sonhos na farda - não, ainda não certificara que tinha cor de bosta - e na carreira. A mesma mulher que brandia pulsos e arrotava insultos todas as noites no seu retorno para casa, jazia, há tempos, na cama, lânguida e nua sem flor, à espera de sua virilidade ainda confiante. As tetas rijas, as carnes perfumosas e mornas de sua portuguesinha nova de apetites e desejos. Aquela matrona de bobes nos cabelos ressecados, urrando palavrões, era uma maldição pérfida. Maldição!

- Vida imprestável! – tropeçou o policial ao descer do bonde. Rumou, contrariado, em direção aos Arcos, esperando de soslaio, o sol que refletia implacável na silhueta do antigo aqueduto. Lapa: antro dos malandros e das putinhas francesas, das polacas em pleno umbigo da República Nova. Madame Satã se escondia num botequim para rir do policial carrancudo com a farda cor de bosta. Os cafetões retardatários borboleteavam de volta para seus muquifos nos arredores e no subúrbio. A madrugada anterior havia sido pouco lucrativa na República dentro da República do Brasil, surpreendeu-se o policial, agora com passo mais lento e a cabeça ainda fervendo. Madame Satã ria ainda mais no botequim com os anéis roçando a navalha na surdina. O policial não o viu. Passou debaixo dos Arcos. Um jornaleirozinho apregoava a manchete esportiva:

- Nem Leônidas evita a derrota do Club de Regatas do Flam...- Crioulo metido, não fez nada no “match” de ontem... O pessoal do quartel... Segunda-feira dos diabos!

- Vida impres... – estancou o policial ao avistar um bêbado de terno que um dia foi branco. Sujo, impecavelmente sujo. Estava deitado num banco de praça com um violão do lado e a última garrafa de cachaça combalida pelos ventos de glória e boêmia da noite carioca.

O policial não titubeou e cutucou, abruptamente, o boêmio inerte. Um tipinho branco, pálido, magérrimo e com o cabelo ainda esticadinho pela gomalina barata das boticas próximas da Rua do Ouvidor. Com muito custo despertou, rescendendo seu bafio voraz de apreciador da cana brejeira, da “água que passarinho não bebe”, como se dizia nos anos pré-guerra. Hitler ainda ensaiava subir ao palco das apropriações.

- Documentos! – advertiu o policial, tomando uma pose importante esquecida no armário da memória. De filho da justiça e da honra no cumprimento do dever à Pátria. A ameaça contra a ordem nacional era, agora, um bebum amarrotado que dormia ao relento de uma manhã embaçada, repugnando a paisagem urbana e fazendo - aí sim o sentido da coisa - com que o policial não se sentisse tão... tão reles. A mulher, o quartel, o time de football, os comunas gemendo... A farda tinha era cheiro de bosta.

Mas era, incontestavelmente, superior àquela figura de dentes podres na sua frente:

- Anh? – resmungou o biltre, coçando os bugalhos injetados.

- Documentos ou vai pro xadrez, malandro safado! – vociferou o policial, já alterado. A peçonha de buço, o salário de miséria, os sacripantas do quartel, Leônidas, o homem de borracha que não emplacava “goal”, o sangue comunista gotejando no pau-de-arara... O bebum mexia e remexia os bolsos doloridos e nada e nada e nada. A carótida do malandro seria fácil de apertar como os testículos dos presos políticos da intentona? Meu Deus, a pança está grande mesmo! A mulher já não trepava mais, os seios esquecidos sobre o ventre morto. Não tinham filhos. Não tinham nem...

- ‘Tá aqui! – disse o malandro amassado, entregando um papel igual ao policial.

O policial examinou, examinou e desdenhou surpreso:

- Mas isto aqui é um samba do Noel Rosa!

- Pois ‘tá falando com ele, muito prazer... – desdenhou, com sua voz fanhosa, o poeta da Vila.

O policial não pode ver seu próprio sorriso. Era fã do sambista e, extasiado, pediu uma canjinha, prontamente atendida:

- Mulata fuzarqueira da Gamboa,

só anda com tipo à toa...

A vida já não era tão imprestável assim. Cantaram até o meio-dia.

Inteligente e bem desenhada está crônica.

Parabéns!

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