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Luís

Luís sorri de braços cruzados. Está sentado na sala de pensão acanhada e decorada com bibelôs e quadros que são oferecidos e vendidos de porta em porta. Feios. Luís é de uma feiura excepcional.

Da janela do seu quarto contíguo vê uma orquídea marrom que o vento beija nauseado.

Acho que ainda está vivo. É meio de março, crê, e a vida continua apesar de não saber. Sente um misto de cansaço, descrença e tanto faz se o mundo não vai implodir, instantâneo e indiferente.

Suas mãos, calosas em seu aspecto, de um tempo para cá deram de tremer como se parkinsonianas fossem. Quase derrubou o prato de sopa um dia na pensão.

Ontem choveu de madrugada. Foi uma chuva sem graça, não teve trovões. Mesmo assim já estava acordado com seu cérebro letárgico. Parece que não nasceu para o despertamento.

Do lado de fora do quarto da pensão onde mora tem um jardim pequeno, secreto e ordinário, com a orquídea marrom, algumas brancas, roxas irmãs e roseiras. Muitas roseiras com rosas vermelhas e um papagaio preso em uma gaiola no canto do pátio. Cor oposta. O papagaio está tão absorto quanto Luís. De vez em quando dá umas bicadas na grade da gaiola e fecha os olhos querendo esquecer que poderia ser livre. Luís suspira. Será que os animais têm noção do que é ser livre ou são indiferentes ao destino ingrato, tal qual ao homem que aprendeu em tão duras peles? Luís não ousa divagar significados. É apenas sentido.

O cenário é bonito se retirarmos seus olhos míopes de sua cara feíssima. Já não se revolta com as condições do tempo, com o amor que não conheceu, com os cabelos brancos distribuídos precisamente, salpicando o preto de outrora, um arranjo pigmentar e falta. Simplesmente não pensa nos pulsos que não ousou tocar.

Café com leite, como é saboroso o café com leite de sua infância que volta quando bebe. Sente até o cheiro da infância enquanto sorve. Que grande tolice a nostalgia: emergir de energias inúteis que não destrói problemas insolúveis. Café amargo, fel, o hoje.

Luís sempre vai numa igreja perto da pensão. Tem quadros imensos da Via Sacra de Jesus, o Cristo. São mal pintados, nem molduras possuem. Luís fica pensando na solidão do artista que pintou os quadros, saboreando um gosto de santidade enquanto deslizava o pincel. Pecaminoso pensamento. Michelangelo, Rafael; aqui nas Minas Gerais o mestre Ataíde: o que foi feito depois é pura desconstrução. Luís tem uma vaga noção dessas imagens santas; nada, porém, desses artistas imantados na alusão. Folheou a Bíblia algumas vezes por curiosidade do Cristo morto retorcido na cruz. Não entende a profundidade do dogma, muito menos o simbolismo pictográfico. Quando está sozinho na igreja do bairro desimportante da cidade, fica apenas entregue ao peso de seu próprio corpo pesado na solicitude das cadeiras extensas distribuídas na nave do templo sem estilo. Não se importa com estilos. A igreja é como as muitas do interior de mineiro nos tempos atuais. Vazias, sem adornos coloniais, sem mistérios, poucas imagens dos Santos. Essas poucas imagens, que resistem em cantos obtusos são sem qualidade artística, sem paixão, sem apelo aos estetas. Nas cidades de hoje do interior de Minas não existem estéticas, escolas ou saberes que se aproximem das belas artes. Luís não conhece arte. Quer apenas estar ali, sentado, quieto, observando o vazio de sua vida.

Uma menina entra pela porta lateral da igreja. Essa porta fica sempre aberta para a entrada de algum fiel ou curioso que queira o abrigo maternal da paróquia. Luís sempre entra por essa porta, pois não gosta de vir às missas no sábado, nem nas liturgias mais concorridas das manhãs monótonas dos domingos. A menina entra alegre. Ela deve ter uns quatro anos de idade, se muito. Arrasta seu pai pela mão. Ele entrou depois a contragosto. Luís observa a criança que mostra todas as imagens dos Santos - Sebastião, Luzia, Judas, o Tadeu, Expedito do corvo - e corre ao batistério, escondido atrás de pilares quadrados e sem adornos. Ali Luís foi batizado. Luís intui que a menina não sabe o que é o ritual católico. A igreja é, no que reflete, um parque de diversões para ela. Corre pelas laterais, entra nos confessionários e se senta diante do altar mais além. Para o além. O pai da menina está desinteressado de estar ali. Não deve ser mais um assíduo nas missas também. Um mundo católico sem propósito, afinal. É próximo do Natal aqui na terra. Na passagem lateral do templo armaram um presépio de dimensões diversas, sem escalas: os reis magos grandes e os bois e os burros e os carneiros pequenos e o São José e a Maria e o Menino Jesus ausente, ainda. A estrela de Belém pendente sobre a casinha de madeira tosca, disforme. O anjo da Anunciação balança a cabeça com as moedas que o pai da menina deposita, a contragosto, no cofre ao pé de suas asas de material vagabundo. O Anjo confirma que o mundo é sem solução. Constata Luís em silêncio curioso. A menina não se cansa de pedir mais moedas para doar ao Anjo inquiridor. As moedas acabaram e as respostas foram perdidas. Luís está satisfeito. Esboça um sorriso, raspa com as costas da mão a barba crescendo como espinhos em seu rosto. Como espinhos que vê na cabeça da figura retorcida e branca sobre o altar de mármore. Dimensão oposta. O pai da menina não viu Luís. Está desinteressado de estar ali. A menina viu Luís. A menina sabe desses mistérios. Chegou a pouco na vida e sua memória ainda é fresca, sem dissabores. Luís também é assim. Sem dissabores. Apenas estar. O pai, enfim, consegue convencer a menina de partir de volta para a rua, para o sol, para a praça, que para ele, é mais diversão e alegria para sua criança. Ele não entende a leveza dos que procuram respostas. Partem. Não sem antes a menina sorrir e acenar um adeus para Luís, satisfeita. A hora é grave. Adeus.

Luís tem que voltar para casa, para a pensão que escolheram para ele morar. Não se lembra de quando começou a viver ali. Não se lembra do primeiro dia que se viu deitado no quarto exíguo, na escuridão daquele teto baixo, forrado com madeira barata e fina. Fechado no escuro com a porta azul de tinta oleosa. Não se lembra de seu pai, tampouco de sua mãe os deixando ali. Detalhes humanos, pequenas convenções. Não tem imagens definidas de seus pais. Não importa isso agora. Sai da igreja corriqueira mais alegre que antes. Levemente alegre. Alegrias são palavras complexas perto da distensão do tempo, de esquecimentos oportunos.

A rua que segue de volta para seu quarto é arborizada sem planos urbanos mais elaborados. São arbustos salpicados em calçadas largas, irregulares e cinzentas. Buracos e rachaduras desenham uma sinistra trilha de retorno. As casas são todas baixas, com platibandas escondendo as telhas de fibrocimento. Uma cidade onde as pessoas são simples, sombrias e de rasteiras almas. Luís anda encolhido, mãos nos bolsos do casaco sem cor. Sorri sempre. Dando pequenos gemidos de satisfação, grunhidos do sem cerimônia. Diverte-se com os carros que trafegam, raros, esfregando os paralelepípedos com frenesi da massagem calosa no dorso da tarde. Poucos homens, sentados da porta de um armazém imemorial, falam impropérios para Luís quando ele passa rindo de si mesmo. Sentem-se afrontados por Luís, por uma ironia e escárnio que ele não conhece. Tentam, em vão, quebrar a harmonia eterna e diamantina que os eleitos possuem. Luís sorri sempre. Os homens são estúpidos e incoerentes. Tentam estraçalhar a ordem verdadeira dos mansos e conformados. Os seres de eleição como Luís. Seus esgares, suas caras tortas, suas piadas e provocações (eles são assim na realidade) são brisas mornas na paisagem interna de Luís.

Está de volta à pensão. Tem uma leve impressão que nada mudou. Os móveis estão todos com o mesmo arranjo. O sofá, de onde Luís assiste às novelas reprisadas diariamente, está com o mesmo desgaste no tecido inevitável de sempre. Vê novelas antigas junto com os donos idosos da pensão. Os donos idosos da pensão são seus parentes distantes. Parece que se lembrou desse inexpressivo pormenor. Como o pormenor de um bibelô feio que quebrou. Um quadro descascado na parede rosa uterina. O papagaio grita lá fora. Luís está de volta. Tudo no seu lugar. Até a orquídea marrom...

Na verdade não: a orquídea marrom parece que murchou um pouco.

 

 

 

Texto bem desenhado e de certo modo triste, uma realidade.

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