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Teria sido lindo se fôssemos

Teria sido lindo se fôssemos
O desejo de ter amado alguém

Há tempos
meu coração pede para falar sobre você.

Mas eu não permito.

Sou rude com ele.

Não deixo que me faça sentir
tudo aquilo que passei tanto tempo
negando existir.

Mas hoje,
em meio a um domingo melancólico,
dei-lhe voz.

E permiti que dissesse
tudo aquilo que é incômodo demais para ouvir.

E ele começou
pelo nosso primeiro encontro.

Era o finalzinho de um período pandêmico.

Um barzinho de esquina.

Eu vestida de preto,
como quase sempre faço
quando quero esconder minha vulnerabilidade.

Você, de jeans lavado
e um perfume que tomou conta
de todo o ambiente.

Nós dois meio tímidos,
mas nada que uma torre de cerveja
não resolvesse.

Conversamos sobre as aleatoriedades da vida,
sobre tudo e sobre nada,
e até sobre a ansiedade
de saber o placar final do jogo do Mengão.

Papo vai,
papo vem,
decidimos comprar cerveja
e ir para outro lugar.

Foi quando tirei da bolsa
minha máscara rosa-choque
com bolinhas pretas.

Você sorriu,
surpreso com a contradição:

nunca imaginaria
que aquela mulher de preto,
de postura firme e quase rude,
esconderia por trás da máscara
alguma coisa tão delicada.

Era uma noite fria.

A praça já não parecia uma boa ideia.

Então entramos em um acordo:
terminaríamos aquela cerveja
na sala da minha casa.

Coloquei Silva para tocar.

Depois de algumas latas,
você escolheu Chico Buarque.

Mais especificamente,
João e Maria.

E alguma coisa em mim
se desarmou.

Eu me senti confortável.

Surpresa.

Como se, pela primeira vez,
não precisasse performar.

Não precisava parecer forte.
Não precisava parecer indiferente.
Não precisava esconder nada.

Eu podia simplesmente ser.

Em algum momento,
nos beijamos.

E você foi embora.

Dois dias depois,
você apareceu ocasionalmente na minha casa.

Perguntei o motivo.

Você disse apenas:

“Eu queria te ver.”

E aquilo me causou estranhamento.

Logo eu,
tão cética para afetos,
estava deixando alguém entrar
sem perceber que havia aberto a porta.

Continuamos nos vendo
por algumas semanas.

Até que, em um dia qualquer,
bebemos além da conta.

Quando acordei,
perguntei sobre a noite anterior.

Você pareceu surpreso
com o meu esquecimento.

Então me contou tudo.

E pediu desculpas.

Por alguma coisa
que eu sequer compreendia.

Por algo que,
até hoje,
não sei nomear.

Conversamos por mais uma semana.

Você disse que não estava bem.

E eu,
que nunca fui boa em demonstrar afeto,
e sabendo da sua resistência
a poemas e poesias,
encontrei outra maneira de falar.

Deixei na porta do seu condomínio
um livro de Vinicius de Moraes,
de 1994.

Um bilhete escrito à mão.

Algumas borrifadas do meu perfume.

Talvez eu estivesse tentando dizer
o que não sabia dizer em voz alta.

Depois disso,
não nos falamos.

Até que um dia
você voltou para pedir desculpas.

Por ter deixado aquela história
no meio.

Por ter tirado de mim
o direito de ter um fim.

E, tomada pela ira
de ter permitido que aquilo me ferisse,
eu disse que suas justificativas
eram confusas,
complexas
e pouco justificáveis.

Mas, olhando agora,
talvez aquelas palavras
nunca tenham sido para você.

Eram para mim.

Eu é que estava confusa.

Eu é que tinha medo
daquele sentimento sem nome.

Eu é que procurava uma justificativa
para alguma coisa
que talvez não precisasse de nenhuma.

Você,
tão acostumado a ir embora.

Eu,
tão acostumada a permitir
que as coisas partissem.

Talvez tenhamos nos encontrado
no lugar exato
em que nenhum dos dois
sabia permanecer.

Eu não amei você.

Mas, pela primeira vez,
eu desejei ter amado alguém.

E talvez seja isso
que meu coração queria me contar
nesta noite de domingo:

que algumas pessoas não chegam
para permanecer.

Algumas chegam
apenas para nos mostrar
que ainda somos capazes
de querer alguém dentro da nossa vida.

E mesmo que não tenha sido,

mesmo que nunca tenha existido
o que poderia ter existido,

deixar meu coração falar sobre você
me faz sentir, novamente,

que teria sido lindo
se fôssemos.

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