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O quarto ao lado

Tive um sonho estranho — desses que grudam na pele e te acompanham o dia todo. Era madrugada, o céu carregado e a chuva fina batia no telhado. Eu estava deitada, o frio entrava pelas frestas da janela, mas dentro de mim havia algo quente demais.

Começou com barulhos. Batidas secas no portão. Sempre que eu tentava me ajeitar na cama, ouvia. Sentava, respirava fundo, e lá vinham os sons. Como se alguém — ou alguma coisa — estivesse tentando me impedir de descansar. Senti dor na barriga, puxão na lombar. Eu precisava sentar pra deitar, como tenho feito ultimamente. E toda vez que sentava, começava de novo: pancadas, ruídos, passos.

Não demorou pra eu ouvir uma voz. Parecia com a do meu marido, mas... não era. Era parecida demais, mas tinha alguma coisa errada. Uma tonalidade diferente, uma ausência de alma. Fingi dormir. Fiquei de olhos fechados, esperando. Quieta. A casa silenciosa, mas os passos... estavam dentro. Como se invadissem os cômodos, passando de leve, como vento pesado.

De repente, tudo silenciou. Só o som da chuva. Mas logo veio o cheiro. Cheiro de queimado. E o calor. Primeiro sutil, depois intenso. Comecei a suar. Abri os olhos.

O quarto estava abafado, sufocante. Me levantei num pulo. Corri os olhos ao redor e percebi que o calor vinha do quarto ao lado — o quartinho onde ficam os assentamentos dos orixás. O fogo tomava conta. Era como se tivesse começado ali, como se tivesse nascido deles.

Corri até a porta, trêmula. Tudo estava pegando fogo. E no meio das chamas, eu vi... o santo. Crescendo. O fogo subia por ele como uma fogueira viva, mas ele não se consumia. O fogo o alimentava, e ele brilhava no meio das labaredas. Era assustador. Era bonito. Era incompreensível.

Eu queria gritar, mas a voz não saía. O suor escorria, os pés descalços no chão quente. Heitor, meu filho, acordou chorando. Peguei ele nos braços e corri pro lado de fora.

Acordei pingando. Estava suando como se tivesse saído de uma sauna. O quarto, escuro e silencioso, parecia normal. Heitor dormia tranquilo. Mas o cheiro ainda estava ali. E o calor... também.

Desde então, não sei se foi sonho. Ou aviso. Ou memória de outra vida. Só sei que eu vi. Eu senti.

E agora, escrevendo isso, me arrepio inteira. Porque, lá no fundo, eu sei: o fogo começou no quarto ao lado.

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Lia

Excelente conto no seu enredo.

Um texto que chamo crônica , bem inspirado, desenhado

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