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Citação de Dulce Regina Magnani em outubro 19, 2023, 12:11 pmA gata fresca
Nós temos uma gata, ela se chama “Xuxa”, às vezes a chamo de “Miau”. Não podemos dizer que é uma gata igual as outras, ela é muito fresca em tudo: só come um tipo de ração (que não é das mais baratas) tem que ter “Soße” (molho), não come nem a galinha, o bife, o peixe ou a “Schnitzel” (bife à milanesa de porco) que sobra do nosso almoço ou jantar. Se fosse uma gata brasileira, comeria de tudo, macarrão, arroz, pão, mas adora pão de queijo. E só gosta de leite fresco da fazenda, o outro ela não toma não. Quando boto comida, ela vem, cheira e depois faz com a pata como quisesse tapar, como dissesse:
– Isso cheira mal, é um lixo, posso enterrar?
Depois de um tempo, vê que eu não dou outra coisa, vem e come, é o jeito, minha amiga felina, senão você vai morrer de fome.
Tudo começou quando a minha filha me disse que gostaria de ter um bichinho de estimação. Concordei se ela tirasse boas notas e se fosse bem na escola, então ela foi muito bem e a coitada esperou um ano, no próximo aniversário ela ganhou.
Primeiro, ficamos discutindo que animal seria: um hamster, um coelho, um cachorro ou um gato. Para os dois primeiros, precisa de uma gaiola e o inconveniente é que o nosso apartamento é pequeno, no inverno, a gaiola ficaria o tempo todo dentro do “apartamento” e o cheiro das necessidades dos bichinhos seria terrível, ainda mais com o aquecimento.
O cachorro ficou fora de cogitação, primeiro, quem sairia para passear com as nevascas e o frio? Segundo, ter cão aqui na Alemanha você tem que pagar imposto para o governo. Terceiro, ele paga passagem (seja de ônibus, metrô, trem ou bonde o mesmo preço de uma criança, tanto que aqui existe uma passagem que dá direito a um adulto a levar três crianças e um cachorro, tudo incluso, não é uma pechincha?)
Decidimos pelo gato, o problema foi arranjar um, a minha sogra tem um, pedi ao meu sogro para arranjar como ele fez para a esposa dele e foi aquela discussão na família. Ele disse:
– Vocês não podem ter um gato, pois vivem num apartamento e se eu arranjasse um gato da fazenda, o bichinho estaria acostumado à liberdade e isso seria muito ruim para o animal. Quem no final arranjou, foi a minha cunhada que tem uma amiga que tem gatos e se dá com todo mundo que tem um e está louca para se livrar dos filhotes. Fomos buscar, era uma gatinha, nasceu em abril e tinha doze semanas. Uma gracinha, parecia mais uma gata extraterrena, pois tinha duas orelhas enormes – será que havia uma mistura com coelho? –, nunca se sabe com um gato do interior.
Além disso, a minha filha prometeu que cuidaria do bichinho, só que sobrou para mim, eu que cuido dela, é minha terceira filha (o amigo do maridão tem razão, o terceiro filho tem pelo). Ela me adora porque eu dou comida, me segue pela casa o tempo todo, se vou tomar banho ela vai junto, se vou para cozinha, já está ela atrás de mim. O maridão é quem limpa o toalhete da gata uma vez por semana, a filha só cuida quando viajamos e quando ela está a fim.
Veio quietinha, mas depois, que se acostumou, botou as garras de fora virou uma diabinha, subia pelas cortinas (tive que amarrá-las), fez do meu sofá de couro que parece um búfalo negro, um boi velho e feio, crivado de buracos. A minha estante, por onde ela sobe e vai ficar atrás das caixas de som, já não tem mais verniz, só dá para ver as marcas das unhas gravadas na madeira.
Nós compramos uma “Katzenkratzbaum” (não sei o nome em português é uma coisa que os gatos podem afiar as unhas e arranhar), mas às vezes, em vez de ir lá, ela vai para a minha poltrona que também virou elevador de gata, pois ela fica no fundo dependurada pelas unhas uns cincos centímetros acima do chão.
A minha roupa de cama começou a esburacar, achei estranho, será que tem traça aqui em casa? Não tem traça não, tem gata, ela corre igual uma louca desvairada e sobe e desce e nessa correria, faz mil buracos e dá mil arranhões, quer seja nos móveis ou no chão, que também é de madeira.
No princípio, deixávamos ela trancada no banheiro, pois se ficasse solta, ninguém dormia com o miado e o barulho das corridas, que parece ser de Fórmula 1. Ficar no banheiro, foi por pouco tempo, pois ela descobriu que tem uma entrada de ar embaixo da porta e assim ela passou a arranhar e fazer um reco-reco interminável durante a madrugada, o jeito foi por a bicha na cozinha.
Agora, ela arranha o vidro da porta e conseguiu fazer um buraco no pé da minha cozinha americana perto da pia. Ruim é catar a gata de noite dentro do apartamento e colocá-la na cozinha, o único jeito é com o “lazer”, ela o adora e fica igual uma alucinada correndo atrás da luz.
Ela vive se escondendo, adora as caixas de madeira de colocar roupa de cama debaixo da cama (e é claro os meus lençóis agora só tem pelo de gata), se você abre um armário, a criatura entra, depois você não vê, fecha a porta e fica procurando o bicho o dia todo. Vai encontrá-la pelo miado. Uma vez, entrou no armário das panelas na cozinha. Eu a procurei no apartamento todo, nem sinal, quando entrei na cozinha, escutava um miau longe, abri todas as portas dos armários e ela saiu de um. Quando abro a porta, ela sai correndo, sobe a escada, que fica do lado da porta de entrada, e eu atrás dela, ela vai até o quinto andar e eu correndo (moro no segundo e ainda bem que o edifício só tem cinco andares).
Uma vez, não vi ela sair, ela passou duas horas do lado de fora, procurei a danada e não achava. Quando ia perto da porta de entrada ouvia um miado, saí e subi a escada, lá estava ela no apartamento de cima arranhando a porta, tinha errado o andar.
Reclama de quando você a manda descer, faz um muxoxo “Inhao” e entende em português “sai daí”, acho que pensa até que é o seu segundo nome e “Komm” (vem) em alemão, ela é uma gata só fresca, esnobe e bilíngue.
Uma vez, estava um calor danado, abrimos todas as janelas e portas que dão para os balcões de frente e o de trás, este dá para o balcão da vizinha, a gata pulou e ficou lá, não voltava de jeito nenhum, nem com o “lazer”, pensava que estávamos brincando, só botava a patinha e quando tentávamos apanhá-la, fugia, arranhava a porta da vizinha e miava. Ficamos nessa brincadeira até as duas e meia da manhã, cansados e tendo que trabalhar bem cedinho no dia seguinte, desistimos. Lá pelas quatro e meia, pula a gata em cima de mim, corro e fecho as portas e dou a caça à gata por encerrada.
O bom, que no meu balcão não tem pomba, aqui tem muitas, fazem uma sujeira enorme. Um dia, vi uma pomba, apanhei a gata e disse para a pomba “Olha que eu tenho para você”, e a pomba fugiu. A minha vizinha colocou tela no balcão por causa das pombas e eu disse para ela “É melhor não por tela e sim arranjar um gato, pois a pombas não se atrevem a aparecer”.
É uma gata muito amada, além da nossa família, os alunos de piano e até a vizinha que às vezes faz baby-sitter para a gata quando nós viajamos.
A gata fresca
Nós temos uma gata, ela se chama “Xuxa”, às vezes a chamo de “Miau”. Não podemos dizer que é uma gata igual as outras, ela é muito fresca em tudo: só come um tipo de ração (que não é das mais baratas) tem que ter “Soße” (molho), não come nem a galinha, o bife, o peixe ou a “Schnitzel” (bife à milanesa de porco) que sobra do nosso almoço ou jantar. Se fosse uma gata brasileira, comeria de tudo, macarrão, arroz, pão, mas adora pão de queijo. E só gosta de leite fresco da fazenda, o outro ela não toma não. Quando boto comida, ela vem, cheira e depois faz com a pata como quisesse tapar, como dissesse:
– Isso cheira mal, é um lixo, posso enterrar?
Depois de um tempo, vê que eu não dou outra coisa, vem e come, é o jeito, minha amiga felina, senão você vai morrer de fome.
Tudo começou quando a minha filha me disse que gostaria de ter um bichinho de estimação. Concordei se ela tirasse boas notas e se fosse bem na escola, então ela foi muito bem e a coitada esperou um ano, no próximo aniversário ela ganhou.
Primeiro, ficamos discutindo que animal seria: um hamster, um coelho, um cachorro ou um gato. Para os dois primeiros, precisa de uma gaiola e o inconveniente é que o nosso apartamento é pequeno, no inverno, a gaiola ficaria o tempo todo dentro do “apartamento” e o cheiro das necessidades dos bichinhos seria terrível, ainda mais com o aquecimento.
O cachorro ficou fora de cogitação, primeiro, quem sairia para passear com as nevascas e o frio? Segundo, ter cão aqui na Alemanha você tem que pagar imposto para o governo. Terceiro, ele paga passagem (seja de ônibus, metrô, trem ou bonde o mesmo preço de uma criança, tanto que aqui existe uma passagem que dá direito a um adulto a levar três crianças e um cachorro, tudo incluso, não é uma pechincha?)
Decidimos pelo gato, o problema foi arranjar um, a minha sogra tem um, pedi ao meu sogro para arranjar como ele fez para a esposa dele e foi aquela discussão na família. Ele disse:
– Vocês não podem ter um gato, pois vivem num apartamento e se eu arranjasse um gato da fazenda, o bichinho estaria acostumado à liberdade e isso seria muito ruim para o animal. Quem no final arranjou, foi a minha cunhada que tem uma amiga que tem gatos e se dá com todo mundo que tem um e está louca para se livrar dos filhotes. Fomos buscar, era uma gatinha, nasceu em abril e tinha doze semanas. Uma gracinha, parecia mais uma gata extraterrena, pois tinha duas orelhas enormes – será que havia uma mistura com coelho? –, nunca se sabe com um gato do interior.
Além disso, a minha filha prometeu que cuidaria do bichinho, só que sobrou para mim, eu que cuido dela, é minha terceira filha (o amigo do maridão tem razão, o terceiro filho tem pelo). Ela me adora porque eu dou comida, me segue pela casa o tempo todo, se vou tomar banho ela vai junto, se vou para cozinha, já está ela atrás de mim. O maridão é quem limpa o toalhete da gata uma vez por semana, a filha só cuida quando viajamos e quando ela está a fim.
Veio quietinha, mas depois, que se acostumou, botou as garras de fora virou uma diabinha, subia pelas cortinas (tive que amarrá-las), fez do meu sofá de couro que parece um búfalo negro, um boi velho e feio, crivado de buracos. A minha estante, por onde ela sobe e vai ficar atrás das caixas de som, já não tem mais verniz, só dá para ver as marcas das unhas gravadas na madeira.
Nós compramos uma “Katzenkratzbaum” (não sei o nome em português é uma coisa que os gatos podem afiar as unhas e arranhar), mas às vezes, em vez de ir lá, ela vai para a minha poltrona que também virou elevador de gata, pois ela fica no fundo dependurada pelas unhas uns cincos centímetros acima do chão.
A minha roupa de cama começou a esburacar, achei estranho, será que tem traça aqui em casa? Não tem traça não, tem gata, ela corre igual uma louca desvairada e sobe e desce e nessa correria, faz mil buracos e dá mil arranhões, quer seja nos móveis ou no chão, que também é de madeira.
No princípio, deixávamos ela trancada no banheiro, pois se ficasse solta, ninguém dormia com o miado e o barulho das corridas, que parece ser de Fórmula 1. Ficar no banheiro, foi por pouco tempo, pois ela descobriu que tem uma entrada de ar embaixo da porta e assim ela passou a arranhar e fazer um reco-reco interminável durante a madrugada, o jeito foi por a bicha na cozinha.
Agora, ela arranha o vidro da porta e conseguiu fazer um buraco no pé da minha cozinha americana perto da pia. Ruim é catar a gata de noite dentro do apartamento e colocá-la na cozinha, o único jeito é com o “lazer”, ela o adora e fica igual uma alucinada correndo atrás da luz.
Ela vive se escondendo, adora as caixas de madeira de colocar roupa de cama debaixo da cama (e é claro os meus lençóis agora só tem pelo de gata), se você abre um armário, a criatura entra, depois você não vê, fecha a porta e fica procurando o bicho o dia todo. Vai encontrá-la pelo miado. Uma vez, entrou no armário das panelas na cozinha. Eu a procurei no apartamento todo, nem sinal, quando entrei na cozinha, escutava um miau longe, abri todas as portas dos armários e ela saiu de um. Quando abro a porta, ela sai correndo, sobe a escada, que fica do lado da porta de entrada, e eu atrás dela, ela vai até o quinto andar e eu correndo (moro no segundo e ainda bem que o edifício só tem cinco andares).
Uma vez, não vi ela sair, ela passou duas horas do lado de fora, procurei a danada e não achava. Quando ia perto da porta de entrada ouvia um miado, saí e subi a escada, lá estava ela no apartamento de cima arranhando a porta, tinha errado o andar.
Reclama de quando você a manda descer, faz um muxoxo “Inhao” e entende em português “sai daí”, acho que pensa até que é o seu segundo nome e “Komm” (vem) em alemão, ela é uma gata só fresca, esnobe e bilíngue.
Uma vez, estava um calor danado, abrimos todas as janelas e portas que dão para os balcões de frente e o de trás, este dá para o balcão da vizinha, a gata pulou e ficou lá, não voltava de jeito nenhum, nem com o “lazer”, pensava que estávamos brincando, só botava a patinha e quando tentávamos apanhá-la, fugia, arranhava a porta da vizinha e miava. Ficamos nessa brincadeira até as duas e meia da manhã, cansados e tendo que trabalhar bem cedinho no dia seguinte, desistimos. Lá pelas quatro e meia, pula a gata em cima de mim, corro e fecho as portas e dou a caça à gata por encerrada.
O bom, que no meu balcão não tem pomba, aqui tem muitas, fazem uma sujeira enorme. Um dia, vi uma pomba, apanhei a gata e disse para a pomba “Olha que eu tenho para você”, e a pomba fugiu. A minha vizinha colocou tela no balcão por causa das pombas e eu disse para ela “É melhor não por tela e sim arranjar um gato, pois a pombas não se atrevem a aparecer”.
É uma gata muito amada, além da nossa família, os alunos de piano e até a vizinha que às vezes faz baby-sitter para a gata quando nós viajamos.