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Citação de Naian Lucas Lopes em dezembro 24, 2025, 9:39 pmAprendi cedo que promessas têm prazo de validade elástico: esticam-se até o ponto em que rompem, e então servem apenas para amarrar o lixo. As nossas, confesso, duraram mais do que eu esperava — talvez por inércia, talvez por aquela piedade que se tem com o próprio erro. Juramos o sempre com a mesma facilidade com que se jura que amanhã começa a dieta. O amor, naquele tempo, era um projeto; hoje, reconheço, era uma maquete.
Houve dias em que acreditamos. Não digo acreditar no outro, que é crença excessiva, mas na ideia de nós dois. Ela gostava de planos; eu, de mapas. Os planos eram generosos, cheios de janelas abertas; os mapas, rigorosos, marcavam becos sem saída. Não brigávamos por isso. Sorríamos. É curioso como o sorriso pode ser um armistício silencioso.
As incompatibilidades chegaram sem alarde, como contas de condomínio. Pequenas, regulares, inevitáveis. Ela queria domingos longos; eu, segundas curtas. Ela via o futuro como um álbum; eu, como uma planilha. Quando lhe falava de prudência, respondia-me com entusiasmo; quando me falava de entusiasmo, eu lhe devolvia prudência. Parecíamos educados demais para admitir que falávamos línguas aparentadas, mas não iguais.
Promessas vazias são como copos bonitos sem água: dão sede. Prometi presença; entreguei pontualidade. Ela prometeu leveza; trouxe expectativa. Nenhum de nós mentiu por vocação. Mentimos por economia: poupar o outro da verdade custa menos do que enfrentar o próprio fracasso. Assim fomos, dois contadores zelosos do afeto, lançando créditos imaginários.
O dia do fim não teve trovões. Houve, isso sim, uma lista. A lista é o instrumento mais honesto da separação: ela não admite metáforas. Canecas, livros, o ventilador que fazia um barulho de trem antigo, a planta que insistia em morrer apesar das regas conjuntas. Discutimos quem ficaria com o tapete — não por apego, mas por logística. Descobri ali que o amor, quando acaba, vira um problema de armazenamento.
Falamos pouco. A economia verbal é um luxo dos desiludidos. Ela perguntou se eu ficaria com os livros; respondi que sim, por hábito. Perguntei pelos quadros; ela disse que não combinavam com a sala nova. Sorri com a elegância possível. Em algum momento, trocamos um abraço que parecia pedido de desculpas mútuo. Não houve lágrimas; houve inventário.
Enquanto embalávamos o que sobrou, percebi a hipocrisia delicada dos afetos fingidos. Digo fingidos não por maldade, mas por costume. Fingimos que ainda doía para não parecer insensíveis; fingimos que não doía para não parecer frágeis. É um teatro de câmara, com poucos espectadores e nenhum aplauso. A ironia, minha velha aliada, cochichava: “Vê? Até o fim é organizado”.
Houve uma frase que não dissemos. Ela pairou entre a estante e a porta, como um pó antigo: “Não fomos o que prometemos”. Não a pronunciei por educação. A educação, aliás, foi o nosso maior defeito. Educados demais para brigar, educados demais para desistir cedo, educados demais para admitir que a realidade não assinou o contrato do sonho.
Saí com duas malas e um senso prático recém-adquirido. No elevador, encontrei o vizinho, que comentou o tempo. Respondi com meteorologia, porque certas catástrofes pedem conversa trivial. Na rua, São Paulo seguia em sua pressa habitual, alheia ao nosso fim civilizado. Os carros buzinavam, os vendedores anunciavam, e a cidade, essa grande repartição pública do acaso, não carimbou nosso adeus.
Caminhei até o metrô pensando que o amor é uma obra em andamento que às vezes é embargada por irregularidades invisíveis. Não falta material; falta acordo. A melancolia veio contida, como convém aos que não querem dar trabalho. Doeu menos do que imaginei e mais do que confesso. Talvez porque o sonho compartilhado, esse sim, tenha sido bem embalado e despachado sem destinatário.
Em casa nova — que é apenas outra casa —, organizei os livros por assunto, como sempre. Encontrei dedicatórias antigas, promessas manuscritas que agora pareciam notas de rodapé de um capítulo mal revisado. Ri sozinho. O humor ácido tem essa utilidade: conserva o coração sem açúcar.
À noite, abri a janela. A Avenida Paulista brilhava com sua luz cansada, e os prédios, enfileirados, pareciam espectadores indiferentes. Pensei nela sem amargura, o que é uma forma discreta de gratidão. Aceitei o adeus como se aceita um atraso de trem: não há drama que o faça chegar antes.
Se amanhã alguém me perguntar o que ficou do amor, direi que ficou o que coube nas malas e o que não coube na linguagem. O resto, São Paulo recolhe. A cidade sabe lidar com sobras; recicla silêncios, transforma despedidas em ruído branco. E eu, caminhando entre sombras e semáforos, sigo com a prudência de quem aprendeu que certas promessas são melhores quando não se renovam.
Aprendi cedo que promessas têm prazo de validade elástico: esticam-se até o ponto em que rompem, e então servem apenas para amarrar o lixo. As nossas, confesso, duraram mais do que eu esperava — talvez por inércia, talvez por aquela piedade que se tem com o próprio erro. Juramos o sempre com a mesma facilidade com que se jura que amanhã começa a dieta. O amor, naquele tempo, era um projeto; hoje, reconheço, era uma maquete.
Houve dias em que acreditamos. Não digo acreditar no outro, que é crença excessiva, mas na ideia de nós dois. Ela gostava de planos; eu, de mapas. Os planos eram generosos, cheios de janelas abertas; os mapas, rigorosos, marcavam becos sem saída. Não brigávamos por isso. Sorríamos. É curioso como o sorriso pode ser um armistício silencioso.
As incompatibilidades chegaram sem alarde, como contas de condomínio. Pequenas, regulares, inevitáveis. Ela queria domingos longos; eu, segundas curtas. Ela via o futuro como um álbum; eu, como uma planilha. Quando lhe falava de prudência, respondia-me com entusiasmo; quando me falava de entusiasmo, eu lhe devolvia prudência. Parecíamos educados demais para admitir que falávamos línguas aparentadas, mas não iguais.
Promessas vazias são como copos bonitos sem água: dão sede. Prometi presença; entreguei pontualidade. Ela prometeu leveza; trouxe expectativa. Nenhum de nós mentiu por vocação. Mentimos por economia: poupar o outro da verdade custa menos do que enfrentar o próprio fracasso. Assim fomos, dois contadores zelosos do afeto, lançando créditos imaginários.
O dia do fim não teve trovões. Houve, isso sim, uma lista. A lista é o instrumento mais honesto da separação: ela não admite metáforas. Canecas, livros, o ventilador que fazia um barulho de trem antigo, a planta que insistia em morrer apesar das regas conjuntas. Discutimos quem ficaria com o tapete — não por apego, mas por logística. Descobri ali que o amor, quando acaba, vira um problema de armazenamento.
Falamos pouco. A economia verbal é um luxo dos desiludidos. Ela perguntou se eu ficaria com os livros; respondi que sim, por hábito. Perguntei pelos quadros; ela disse que não combinavam com a sala nova. Sorri com a elegância possível. Em algum momento, trocamos um abraço que parecia pedido de desculpas mútuo. Não houve lágrimas; houve inventário.
Enquanto embalávamos o que sobrou, percebi a hipocrisia delicada dos afetos fingidos. Digo fingidos não por maldade, mas por costume. Fingimos que ainda doía para não parecer insensíveis; fingimos que não doía para não parecer frágeis. É um teatro de câmara, com poucos espectadores e nenhum aplauso. A ironia, minha velha aliada, cochichava: “Vê? Até o fim é organizado”.
Houve uma frase que não dissemos. Ela pairou entre a estante e a porta, como um pó antigo: “Não fomos o que prometemos”. Não a pronunciei por educação. A educação, aliás, foi o nosso maior defeito. Educados demais para brigar, educados demais para desistir cedo, educados demais para admitir que a realidade não assinou o contrato do sonho.
Saí com duas malas e um senso prático recém-adquirido. No elevador, encontrei o vizinho, que comentou o tempo. Respondi com meteorologia, porque certas catástrofes pedem conversa trivial. Na rua, São Paulo seguia em sua pressa habitual, alheia ao nosso fim civilizado. Os carros buzinavam, os vendedores anunciavam, e a cidade, essa grande repartição pública do acaso, não carimbou nosso adeus.
Caminhei até o metrô pensando que o amor é uma obra em andamento que às vezes é embargada por irregularidades invisíveis. Não falta material; falta acordo. A melancolia veio contida, como convém aos que não querem dar trabalho. Doeu menos do que imaginei e mais do que confesso. Talvez porque o sonho compartilhado, esse sim, tenha sido bem embalado e despachado sem destinatário.
Em casa nova — que é apenas outra casa —, organizei os livros por assunto, como sempre. Encontrei dedicatórias antigas, promessas manuscritas que agora pareciam notas de rodapé de um capítulo mal revisado. Ri sozinho. O humor ácido tem essa utilidade: conserva o coração sem açúcar.
À noite, abri a janela. A Avenida Paulista brilhava com sua luz cansada, e os prédios, enfileirados, pareciam espectadores indiferentes. Pensei nela sem amargura, o que é uma forma discreta de gratidão. Aceitei o adeus como se aceita um atraso de trem: não há drama que o faça chegar antes.
Se amanhã alguém me perguntar o que ficou do amor, direi que ficou o que coube nas malas e o que não coube na linguagem. O resto, São Paulo recolhe. A cidade sabe lidar com sobras; recicla silêncios, transforma despedidas em ruído branco. E eu, caminhando entre sombras e semáforos, sigo com a prudência de quem aprendeu que certas promessas são melhores quando não se renovam.
Citação de JC BRIDON em dezembro 27, 2025, 5:47 pmCom toda certeza, caro poeta.
Um verso muito verdadeiro que reflete tudo aquilo que pensamos.
"Promessas vazias são como copos bonitos sem água: dão sede"
Creio que se tu tivesse me separado seria nos termos do seu poema.
Parabéns
Com toda certeza, caro poeta.
Um verso muito verdadeiro que reflete tudo aquilo que pensamos.
"Promessas vazias são como copos bonitos sem água: dão sede"
Creio que se tu tivesse me separado seria nos termos do seu poema.
Parabéns
Citação de Lia em dezembro 28, 2025, 3:38 pmFaço um recorte dessa frase: Assim fomos, dois contadores zelosos do afeto, lançando créditos imaginários. Resume o que pessoas sentem e como tentam lidar com sentimentos. Um desabafo feito com estilo. Parabens e Feliz Ano Novo.
Faço um recorte dessa frase: Assim fomos, dois contadores zelosos do afeto, lançando créditos imaginários. Resume o que pessoas sentem e como tentam lidar com sentimentos. Um desabafo feito com estilo. Parabens e Feliz Ano Novo.