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Despedida e Desilusão

Aprendi cedo que promessas têm prazo de validade elástico: esticam-se até o ponto em que rompem, e então servem apenas para amarrar o lixo. As nossas, confesso, duraram mais do que eu esperava — talvez por inércia, talvez por aquela piedade que se tem com o próprio erro. Juramos o sempre com a mesma facilidade com que se jura que amanhã começa a dieta. O amor, naquele tempo, era um projeto; hoje, reconheço, era uma maquete.

Houve dias em que acreditamos. Não digo acreditar no outro, que é crença excessiva, mas na ideia de nós dois. Ela gostava de planos; eu, de mapas. Os planos eram generosos, cheios de janelas abertas; os mapas, rigorosos, marcavam becos sem saída. Não brigávamos por isso. Sorríamos. É curioso como o sorriso pode ser um armistício silencioso.

As incompatibilidades chegaram sem alarde, como contas de condomínio. Pequenas, regulares, inevitáveis. Ela queria domingos longos; eu, segundas curtas. Ela via o futuro como um álbum; eu, como uma planilha. Quando lhe falava de prudência, respondia-me com entusiasmo; quando me falava de entusiasmo, eu lhe devolvia prudência. Parecíamos educados demais para admitir que falávamos línguas aparentadas, mas não iguais.

Promessas vazias são como copos bonitos sem água: dão sede. Prometi presença; entreguei pontualidade. Ela prometeu leveza; trouxe expectativa. Nenhum de nós mentiu por vocação. Mentimos por economia: poupar o outro da verdade custa menos do que enfrentar o próprio fracasso. Assim fomos, dois contadores zelosos do afeto, lançando créditos imaginários.

O dia do fim não teve trovões. Houve, isso sim, uma lista. A lista é o instrumento mais honesto da separação: ela não admite metáforas. Canecas, livros, o ventilador que fazia um barulho de trem antigo, a planta que insistia em morrer apesar das regas conjuntas. Discutimos quem ficaria com o tapete — não por apego, mas por logística. Descobri ali que o amor, quando acaba, vira um problema de armazenamento.

Falamos pouco. A economia verbal é um luxo dos desiludidos. Ela perguntou se eu ficaria com os livros; respondi que sim, por hábito. Perguntei pelos quadros; ela disse que não combinavam com a sala nova. Sorri com a elegância possível. Em algum momento, trocamos um abraço que parecia pedido de desculpas mútuo. Não houve lágrimas; houve inventário.

Enquanto embalávamos o que sobrou, percebi a hipocrisia delicada dos afetos fingidos. Digo fingidos não por maldade, mas por costume. Fingimos que ainda doía para não parecer insensíveis; fingimos que não doía para não parecer frágeis. É um teatro de câmara, com poucos espectadores e nenhum aplauso. A ironia, minha velha aliada, cochichava: “Vê? Até o fim é organizado”.

Houve uma frase que não dissemos. Ela pairou entre a estante e a porta, como um pó antigo: “Não fomos o que prometemos”. Não a pronunciei por educação. A educação, aliás, foi o nosso maior defeito. Educados demais para brigar, educados demais para desistir cedo, educados demais para admitir que a realidade não assinou o contrato do sonho.

Saí com duas malas e um senso prático recém-adquirido. No elevador, encontrei o vizinho, que comentou o tempo. Respondi com meteorologia, porque certas catástrofes pedem conversa trivial. Na rua, São Paulo seguia em sua pressa habitual, alheia ao nosso fim civilizado. Os carros buzinavam, os vendedores anunciavam, e a cidade, essa grande repartição pública do acaso, não carimbou nosso adeus.

Caminhei até o metrô pensando que o amor é uma obra em andamento que às vezes é embargada por irregularidades invisíveis. Não falta material; falta acordo. A melancolia veio contida, como convém aos que não querem dar trabalho. Doeu menos do que imaginei e mais do que confesso. Talvez porque o sonho compartilhado, esse sim, tenha sido bem embalado e despachado sem destinatário.

Em casa nova — que é apenas outra casa —, organizei os livros por assunto, como sempre. Encontrei dedicatórias antigas, promessas manuscritas que agora pareciam notas de rodapé de um capítulo mal revisado. Ri sozinho. O humor ácido tem essa utilidade: conserva o coração sem açúcar.

À noite, abri a janela. A Avenida Paulista brilhava com sua luz cansada, e os prédios, enfileirados, pareciam espectadores indiferentes. Pensei nela sem amargura, o que é uma forma discreta de gratidão. Aceitei o adeus como se aceita um atraso de trem: não há drama que o faça chegar antes.

Se amanhã alguém me perguntar o que ficou do amor, direi que ficou o que coube nas malas e o que não coube na linguagem. O resto, São Paulo recolhe. A cidade sabe lidar com sobras; recicla silêncios, transforma despedidas em ruído branco. E eu, caminhando entre sombras e semáforos, sigo com a prudência de quem aprendeu que certas promessas são melhores quando não se renovam.

Texto bem escrito . Parabéns!

Com toda certeza, caro poeta.

Um verso muito verdadeiro que reflete tudo aquilo que pensamos.

"Promessas vazias são como copos bonitos sem água: dão sede"

Creio que se tu tivesse me separado seria nos termos do seu poema.

Parabéns

 

Faço um recorte dessa frase:  Assim fomos, dois contadores zelosos do afeto, lançando créditos imaginários. Resume o que pessoas sentem e como tentam lidar com sentimentos. Um desabafo feito com estilo. Parabens e Feliz Ano Novo.

Gratidão poeta por sua presença constante.

Feliz Ano Novo

 

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