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Citação de Naian Lucas Lopes em dezembro 26, 2025, 1:22 pmHá um fenômeno sobrenatural rondando os shoppings, as praças e os anúncios de fim de ano, e não é aparição de alma penada nem assombração do sertão: é o Papai Noel magro. Magro não de fome bíblica, mas de academia. Um Noel de abdômen definido, panturrilha desenhada e olhar de quem sabe quantas gramas de proteína cabem numa colher de whey. Falta só o gorro virar viseira e o trenó ser trocado por uma bicicleta ergométrica.
No meu tempo — e quando digo “meu tempo”, peço licença a Ariano Suassuna, que sempre falava como quem já tinha vivido três encarnações — Papai Noel era largo. Largo de alma, de barriga e de risada. Entrava pela chaminé porque a chaminé era generosa e porque ele também era. Hoje, se entrar, sai fazendo abdominal pendurado e ainda reclama que a fuligem atrapalha o treino funcional.
Dizem que a culpa é do Mounjaro. Não sei quem é esse cabra, se mora em Petrolina ou em Silicon Valley, mas sei que virou personagem de conversa de Natal. Antigamente, a família discutia política e o preço do peru; agora discute miligrama, aplicação semanal e se dá pra comer rabanada “sem culpa”. A culpa, aliás, virou a nova vilã do presépio: está sempre ali, entre o boi e o burro, olhando torto para o panetone.
A geração fitness decretou: Noel pode até entregar presentes, mas não pode entregar gordura localizada. E lá vem o personal trainer, figura mística dos tempos modernos, anunciando em propaganda de Instagram: “Seja saudável neste Natal”. Como se saúde tivesse prazo de validade e começasse sempre no dia 2 de janeiro, junto com o boleto da academia. O personal fala com a mesma fé de um beato do Cariri, só que em vez de prometer salvação da alma, promete secar o abdômen antes do Réveillon.
E assim a magia vai emagrecendo. O trenó agora tem limite de peso. As renas usam smartwatch. Rudolph foi diagnosticado com intolerância à lactose e trocou o leite por bebida vegetal. O saco de presentes diminuiu porque “excesso de carga dá lesão”. Noel não diz mais “ho ho ho”, diz “foco, força e fé”. O duende, coitado, virou estagiário de startup, trabalha de home office e só aparece no Natal para postar stories.
Enquanto isso, a ceia sofre. A farofa é integral. A maionese virou “salada de batata desconstruída”. O arroz com passas precisa de justificativa científica. Comer virou ato político, moral e metabólico. A rabanada, antes sacramento, agora é pecado capital. O panetone foi exilado junto com o vinil da Simone, como se cantar “Então é Natal” fosse um ataque direto ao índice glicêmico da nação.
A verdade é que o Natal sempre foi um pouco exagerado, e isso era sua graça. Exagero de comida, de abraço, de promessa que não se cumpre. Ariano diria que o homem precisa de um pouco de desmedida para não virar máquina. E eu acrescento: sem barriga, Papai Noel vira gerente de projeto. Sem barba farta, vira coach. Sem gordura, perde a maciez da lenda.
Não sou contra a saúde — Deus me livre, até caminho quando dá e bebo água sem ninguém mandar. Mas há uma diferença entre cuidar do corpo e transformar o corpo em religião oficial do mês de dezembro. Natal não foi feito para contagem de macros, foi feito para contar histórias. Não foi feito para jejum intermitente, mas para intervalo entre uma piada ruim e outra melhor ainda.
Que voltem os Noéis que cheiram a bolo, que suam de tanto rir, que desafinam junto com a televisão ligada na Globo. Que o trenó rangendo seja mais importante que o shape definido. Que a magia engorde um pouco, nem que seja de saudade.
Há um fenômeno sobrenatural rondando os shoppings, as praças e os anúncios de fim de ano, e não é aparição de alma penada nem assombração do sertão: é o Papai Noel magro. Magro não de fome bíblica, mas de academia. Um Noel de abdômen definido, panturrilha desenhada e olhar de quem sabe quantas gramas de proteína cabem numa colher de whey. Falta só o gorro virar viseira e o trenó ser trocado por uma bicicleta ergométrica.
No meu tempo — e quando digo “meu tempo”, peço licença a Ariano Suassuna, que sempre falava como quem já tinha vivido três encarnações — Papai Noel era largo. Largo de alma, de barriga e de risada. Entrava pela chaminé porque a chaminé era generosa e porque ele também era. Hoje, se entrar, sai fazendo abdominal pendurado e ainda reclama que a fuligem atrapalha o treino funcional.
Dizem que a culpa é do Mounjaro. Não sei quem é esse cabra, se mora em Petrolina ou em Silicon Valley, mas sei que virou personagem de conversa de Natal. Antigamente, a família discutia política e o preço do peru; agora discute miligrama, aplicação semanal e se dá pra comer rabanada “sem culpa”. A culpa, aliás, virou a nova vilã do presépio: está sempre ali, entre o boi e o burro, olhando torto para o panetone.
A geração fitness decretou: Noel pode até entregar presentes, mas não pode entregar gordura localizada. E lá vem o personal trainer, figura mística dos tempos modernos, anunciando em propaganda de Instagram: “Seja saudável neste Natal”. Como se saúde tivesse prazo de validade e começasse sempre no dia 2 de janeiro, junto com o boleto da academia. O personal fala com a mesma fé de um beato do Cariri, só que em vez de prometer salvação da alma, promete secar o abdômen antes do Réveillon.
E assim a magia vai emagrecendo. O trenó agora tem limite de peso. As renas usam smartwatch. Rudolph foi diagnosticado com intolerância à lactose e trocou o leite por bebida vegetal. O saco de presentes diminuiu porque “excesso de carga dá lesão”. Noel não diz mais “ho ho ho”, diz “foco, força e fé”. O duende, coitado, virou estagiário de startup, trabalha de home office e só aparece no Natal para postar stories.
Enquanto isso, a ceia sofre. A farofa é integral. A maionese virou “salada de batata desconstruída”. O arroz com passas precisa de justificativa científica. Comer virou ato político, moral e metabólico. A rabanada, antes sacramento, agora é pecado capital. O panetone foi exilado junto com o vinil da Simone, como se cantar “Então é Natal” fosse um ataque direto ao índice glicêmico da nação.
A verdade é que o Natal sempre foi um pouco exagerado, e isso era sua graça. Exagero de comida, de abraço, de promessa que não se cumpre. Ariano diria que o homem precisa de um pouco de desmedida para não virar máquina. E eu acrescento: sem barriga, Papai Noel vira gerente de projeto. Sem barba farta, vira coach. Sem gordura, perde a maciez da lenda.
Não sou contra a saúde — Deus me livre, até caminho quando dá e bebo água sem ninguém mandar. Mas há uma diferença entre cuidar do corpo e transformar o corpo em religião oficial do mês de dezembro. Natal não foi feito para contagem de macros, foi feito para contar histórias. Não foi feito para jejum intermitente, mas para intervalo entre uma piada ruim e outra melhor ainda.
Que voltem os Noéis que cheiram a bolo, que suam de tanto rir, que desafinam junto com a televisão ligada na Globo. Que o trenó rangendo seja mais importante que o shape definido. Que a magia engorde um pouco, nem que seja de saudade.
Citação de JC BRIDON em dezembro 27, 2025, 5:57 pmUm belo texto de Natal, pois eram assim mesmo.
Hoje em dia se o Papal Noel ainda existisse teria que primeiro ir à uma Academia, fazer exercícios e tudo o mais.
Como no texto, prefiro os do tempo atrás que inclusive nos metia medo e até hoje não sei bem o porquê.
Parabéns
Feliz Natal e Um Ano Novo 2025 e 2026.
Um belo texto de Natal, pois eram assim mesmo.
Hoje em dia se o Papal Noel ainda existisse teria que primeiro ir à uma Academia, fazer exercícios e tudo o mais.
Como no texto, prefiro os do tempo atrás que inclusive nos metia medo e até hoje não sei bem o porquê.
Parabéns
Feliz Natal e Um Ano Novo 2025 e 2026.